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Sexta-feira, 01 de Maio 2026
Colunas/Opinião

No Brasil, não precisa de guerra.

Entre bombas e tempestades, uma reflexão irônica sobre como no Brasil basta chover para cidades inteiras mergulharem no escuro.

No Brasil, não precisa de guerra.
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Esses dias eu estava vendo imagens da guerra. mísseis cruzando o céu, explosões, sirenes, prédios atingidos, aquela coreografia trágica que a humanidade insiste em repetir há séculos. tudo muito dramático, muito tenso, muito sério. Mas teve uma coisa que me chamou atenção de um jeito meio constrangedor: as luzes.

Os prédios continuavam acesos. janelas iluminadas, ruas funcionando, apartamentos cheios de gente provavelmente assistindo à própria guerra pela televisão. Bomba de um lado, sirene do outro… e a energia elétrica firme, disciplinada, trabalhando normalmente. Foi impossível não pensar no brasil.

Ou melhor: em qualquer cidade brasileira quando resolve cair uma tempestade um pouco mais caprichada. Porque aqui o processo é quase científico. o vento começa a soprar, o céu escurece, alguém comenta “acho que vem chuva” e imediatamente nasce uma tensão coletiva que todo brasileiro conhece muito bem.

Não é medo da chuva. É medo da luz. A tempestade nem começou e já tem gente olhando para o teto como quem observa um paciente em estado delicado. porque todo mundo sabe que a rede elétrica brasileira tem uma relação emocional muito sensível com fenômenos naturais.

Basta cinco minutos de chuva ou de vento mais forte e a eletricidade parece que é arrastada para uma realidade paralela da qual nós não fazemos parte. E pronto. acabou o espetáculo tecnológico do século xxi.

Cinco minutos antes você pagava contas no aplicativo do banco, via guerra em tempo real no celular e pedia comida por um aplicativo que promete entrega em quinze minutos.

Cinco minutos depois você está andando pela casa com o celular na mão tentando iluminar o caminho até a cozinha, procurando velas como se fosse um personagem de novela de época. Daquelas bem antigas, inclusive.

É uma transformação muito rápida. o brasileiro sai da modernidade digital direto para uma experiência histórica imersiva. A geladeira vira um objeto decorativo, o wi-fi entra em estado de luto e a casa inteira passa a ter um silêncio estranho, quase solene.

E não é um apagão rápido, daqueles que duram alguns minutos enquanto alguém resolve o problema. Não. Às vezes são dois dias sem luz. Três. Quatro.

Tempo suficiente para você desenvolver uma relação afetiva com o silêncio da geladeira desligada e começar a tratar cada tomada da casa como uma peça de arqueologia industrial. O curioso é perceber que existem lugares do mundo onde caem bombas e a cidade continua iluminada. Aqui não precisa de guerra. basta chover.

E talvez essa seja a grande vantagem estratégica do brasil. Enquanto o resto do planeta discute mísseis, drones e sistemas de defesa sofisticados, nós já dominamos uma tecnologia muito mais avançada:

Conseguimos derrubar uma cidade inteira com uma nuvem.

@enricopierroofc

Enrico Pierro escreve semanalmente para mais de 40 jornais e portais pelo brasil. seus textos também estão disponíveis nas redes sociais, onde compartilha reflexões sobre o cotidiano, sentimentos e humanidade.

Enrico Pierro

Publicado por:

Enrico Pierro

Enrico Pierro, nascido em 1986, é publicitário, escritor, apresentador de TV, podcaster e colunista.

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