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Quarta-feira, 06 de Maio 2026
Notícias/Justiça

Justiça Federal condena professor aposentado à morte

O título parece extremo, mas é assim que a família interpreta a decisão que negou o tratamento capaz de retardar o avanço da fibrose pulmonar do professor aposentado Aluízio Pinto de Abreu, de 68 anos.

Justiça Federal condena professor aposentado à morte
Sem o remédio negado pela Justiça, professor enfrenta a doença contando cada respiração. Foto: Portal Seles Nafes.
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Não foi uma condenação formal. Não houve júri. Nem sentença lida em voz alta. Mas, para Aluízio Pinto de Abreu, de 68 anos, o efeito é o mesmo.

A Justiça Federal disse “não” ao medicamento que poderia desacelerar a fibrose pulmonar idiopática, doença rara, progressiva e sem cura que, aos poucos, rouba o ar de quem ainda tenta viver.

E, quando o tratamento é negado, o que sobra é o tempo. Só que o tempo, nesse caso, não cura.

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Professor por mais de três décadas na educação pública e especial do Amapá, Aluízio hoje mede o dia em respirações curtas. Falar exige pausa. Andar exige cálculo. Um simples banho se transforma em esforço.

Mas não foi a doença que mais doeu. Foi o “não”. Foi a sentença.

Depois de quase um ano esperando autorização para um tratamento que poderia retardar o avanço da fibrose pulmonar, a resposta veio seca, técnica, distante: “injustificável diante do prognóstico”.

Traduzindo para o idioma da vida real: caro demais para alguém que talvez não viva o suficiente. A decisão não diz isso com essas palavras. Mas é isso que ela grita.

Porque, no fim, não se trata apenas de orçamento público, laudos médicos ou pareceres frios. Trata-se de definir quanto vale o tempo de alguém. E, nesse cálculo, o tempo de Aluízio foi tratado como um investimento de retorno duvidoso. Enquanto isso, a doença não pede parecer. Ela avança.

O pulmão endurece, cicatriza, fecha portas por dentro. O ar vira um visitante raro. O cotidiano encolhe. O homem que antes ocupava campos, salas de aula e histórias agora ocupa metros quadrados e horas ligadas a um concentrador de oxigênio. Quinze horas por dia. Um tipo de prisão sem grades.

O remédio existe. Não cura. Não salva. Mas segura a queda, desacelera o desmoronamento, estica o fio da vida. Só que custa cerca de R$ 25 mil por mês, um valor que, para a lógica institucional, pesa mais que o argumento humano.

E aí nasce o paradoxo silencioso: A medicina diz que ainda há tempo. A Justiça responde que talvez não valha a pena comprá-lo.

No meio disso, um homem respira. Ou tenta. “Não estou pedindo cura. Estou pedindo mais tempo de vida”, resumiu.

A frase não é um apelo dramático. É quase matemática. É alguém tentando negociar dias com quem só enxerga números.

Existe algo de profundamente desconfortável nisso tudo. Porque a Justiça foi criada para equilibrar. Mas, em certos momentos, parece apenas organizar prioridades. E nem sempre a vida está no topo da lista.

Não há crime aqui. Não há escândalo explícito. Não há manchete de corrupção. Há algo mais sutil. E talvez mais cruel.

Uma decisão correta no papel, mas insuficiente na alma.

Porque quando o direito de viver vira uma equação de custo-benefício, o resultado nunca é neutro. Ele pesa. E, quase sempre, pesa mais para quem já está perdendo o ar.

De Bubuia

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