Promotor afastado acessou processo secreto dias antes da eleição de 2024
Registros do sistema mostram que o promotor João Paulo, irmão do ex-prefeito Furlan, acessou autos sob segredo de justiça mesmo sem figurar como parte na ação.
Registros eletrônicos do sistema judicial indicam que o promotor de Justiça João Furlan acessou virtualmente, em 25 de setembro de 2024, documentos do processo nº 0002947-02.2019.8.03.0002, que tramita sob segredo de justiça desde 2019.
Os registros apontam que o membro do Ministério Público realizou consulta aos autos mesmo sem figurar como parte no processo, o que levantou questionamentos internos sobre a regularidade do acesso.
O caso trata de uma investigação de violência doméstica envolvendo o coronel Elvis Murilo Azevedo, que à época ocupava o cargo de chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do Governo do Estado do Amapá.
João Furlan é irmão do prefeito de Macapá, Antônio Furlan, que disputava a reeleição naquele momento.
Documentos protegidos apareceram em reportagem na reta final da campanha
Cinco dias antes da eleição municipal de 2024, em 1º de outubro, o portal Ponto da Pauta, de propriedade do jornalista Eduardo Neves, publicou reportagem contendo “prints” de documentos internos do processo.
Entre os materiais exibidos estavam:
trechos do Boletim de Ocorrência registrado na Delegacia de Crimes Contra a Mulher de Santana
partes do depoimento prestado pela mãe do coronel Elvis Murilo à polícia
As informações estavam protegidas por segredo de justiça, condição que restringe o acesso apenas às partes envolvidas, advogados e autoridades diretamente vinculadas ao processo.
A reportagem descrevia acusações de violência psicológica, ameaças e conflitos familiares. Segundo o relato apresentado no boletim, a mãe do coronel teria afirmado ter sido ofendida e ameaçada pelo filho.
O texto também mencionava um episódio ocorrido em abril de 2019, com registro de discussão familiar e danos a objetos domésticos.
Após a investigação policial, o caso foi encaminhado à Justiça. Conforme o próprio conteúdo divulgado na reportagem, Elvis Murilo negou as acusações e a mãe optou por não dar continuidade ao processo.
Divulgação ocorreu em momento sensível da disputa eleitoral
Naquele período, o Governo do Estado apoiava a candidatura de Paulo Lemos à Prefeitura de Macapá. Nos bastidores da campanha, havia avaliação de que a disputa poderia chegar ao segundo turno.
A publicação do conteúdo envolvendo um integrante do alto escalão do governo estadual ocorreu justamente na reta final da campanha municipal, poucos dias antes da votação.
CNMP determinou afastamento do promotor
Em janeiro de 2026, o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) determinou o afastamento cautelar de João Furlan.
A decisão foi referendada por unanimidade pelo plenário do conselho em fevereiro.
O promotor passou a responder a Processo Administrativo Disciplinar (PAD) e está proibido de acessar prédios e sistemas informatizados do Ministério Público do Amapá durante a apuração.
Portal que divulgou documentos aparece em inquérito da DECOR
O jornalista Eduardo Neves Trindade, responsável pelo portal que divulgou os documentos do processo sigiloso, é citado no Inquérito Policial nº 030-2025, conduzido pela Delegacia de Repressão à Corrupção (DECOR).
A investigação apura a atuação de um grupo digital suspeito de disseminação coordenada de conteúdos políticos, caso que ficou conhecido como “inquérito das Fake News” no estado.
Durante a apuração, relatórios de inteligência financeira identificaram movimentações consideradas atípicas envolvendo pessoas ligadas ao comunicador.
Segundo o inquérito, valores elevados teriam sido movimentados por:
uma parente apontada como possível laranja, que exibe viagens internacionais em redes sociais
um estrangeiro investigado por estelionato ligado a apostas esportivas
Investigação encontrou barreiras internas
Apesar dos indícios reunidos no inquérito policial, a investigação encontrou resistência institucional.
O Ministério Público se posicionou contra pedidos de quebra de sigilo de investigados ligados ao grupo digital analisado no caso.
Entre os nomes mencionados na investigação estariam apoiadores do prefeito de Macapá, o que ampliou o debate sobre possível blindagem institucional durante a apuração.
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